Amélia

PT-BR • Posted at 31/12/2020

Desde pequeno, gosto muito de Hermes e Renato. Se você não conhece, o que é difícil, se trata do melhor grupo de comédia do Brasil, na minha opinião. E a partir de 2006 eles começaram uma novela chamada Sinha Boça, que era sobre o Boça, um dos personagens, se não o, mais icônicos do grupo. É um retrato de uma pessoa já "adulta" que sempre foi tratado com um certo mimo e protecionismo excessivo que, consequentemente, acabou ficando grande só de corpo mas infantil de cabeça. A série sempre brinca apontando que ele é um menino "criado pela vó".

A vó Lurdes, apesar de muitas das brincadeiras, posso dizer que é um retrato da figura de avó. É uma senhora que cuida muito do neto, protege com muito carinho, deseja o bem incansavelmente e vive uma vida calma e caseira. E o Boça, apesar de sofrer as consequências dessa criação, é um neto que ama incondicionalmente sua avó. Tem nela o que entende por família e se orgulha de ser criado por ela. Tudo isso porque a vó Lurdes, de alguma forma, me faz pensar na minha avó, a vó Amélia. Ou Dona Amélia.

Não tive muito contato com meus avôs paternos. Apesar de sempre pensar neles com muito carinho, por morarem muito longe, nos relacionamos muito pouco. O meu avô materno, por outro lado, faleceu muito antes do meu nascimento, então só o conheci por fotos que pareciam de séculos atrás e por histórias ali e aqui contadas pela minha avó, que sempre sentiu sua ausência, e por minha mãe. Minha avó é o que eu sempre considerei como minha verdadeira família para além de pais e irmãos. Era minha maior e única conexão com minha família materna.

Minha avó teve 5 filhos, incluindo minha mãe, a caçula. Talvez por conta disso, e por muitas outras coisas, minha avó sempre esteve mais próxima da minha mãe. E consequentemente, de mim. Acredito que fui o neto que ela mais acompanhou. Temos fotos juntos desde que era muito pequeno e ela lembrava de vários momentos da minha vida.

Há muitos anos, minha avó tinha uma audição comprometida. Isso no começo era motivo de várias risadas porque frequentemente a gente perguntava se ela havia escutado x e ela respondia "você está falando de y?" sendo y um assunto completamente aleatório e distante do que estávamos falando. E ela sempre foi assustadoramente lúcida. Quando eu nasci, minha avó já era "idosa", ela já tinha 72 anos e, mesmo nessa idade, a mente estava intacta. Era uma leitora assídua, devorara livros, revistas, qualquer coisa que tinha pra ler. Durante a década de 2000-2010 minha avó ainda era muito ativa fisicamente, era bastante independente. Então era frequente ela estar sempre por aí "batendo perna".

Em 2011, ela sofreu a sua primeira fratura no fêmur e isso mudou tudo pra ela e para nossa família. Sua independência física ficou muito comprometida e dali pra frente se reduziu demais, minha mãe desenvolveu um receio e preocupação latente com medo de uma nova e mais severa queda. E eu, minha irmã e meu pai nos tornamos, naturalmente, pequenos vigias, sempre vendo o que minha avó ia fazer, para ela não tropeçar, cair e sofrer um novo acidente complicado.

Toda vez que íamos sair com ela, era comum, devido sua audição ruim, ficarmos gritando "cuidado com o degrau" enquanto andávamos mais devagar que tartarugas. E eu, por algum motivo, sempre fui mais paciente e não me incomodava, quando acontecia, de acompanha-la, segurar o braço dela, acompanhando ela a caminhar.

Com essa redução na sua mobilidade, minha avó manteve a lucidez na leitura. E também na escrita. Além de ler livros inteiros em um, dois dias, ela escrevia muito o que encontrava ser interessante, o que estava pensando e cartas para familiares. Minha família materna sempre esteve ao redor do Brasil, e muitos conhecidos e amigos da minha avó também. Ela sempre manteve o hábito de se comunicar por cartas então estava sempre escrevendo e pedindo pra gente enviar. Ela guardava o endereço e telefone de todas as pessoas importantes pra ela em agendas e surpreendentemente, entre várias delas, ela sempre encontrava os dados da pessoa com quem ela queria conversar.

Era frequente chegar em casa e encontrar minha avó com algum pedaço de revista recortado: "Li isso, e lembrei de você. É uma receita vegetariana, você já fez essa?". As vezes eram recortes de coisas que ela sabia que eu gostava e guardava pra mim. As vezes eram mensagens e contos que ela queria que eu lesse porque achou interessante por ter alguma mensagem e significado bonito.

Apesar de ser religiosa, minha avó era bastante inteligente, de certa maneira, emocionalmente. Ela lia muitos livros sobre auto-conhecimento, controle emocional, amor, etc. E em várias das mensagens que ela escrevia ela passava esse conhecimento. Fui acumulando muitos desses pequenos papéis, cartinhas, mensagens, que ela ia escrevendo ao longo dos anos. E eu acredito que todo esse hábito e exercício do pensamento foi o que a levou tão longe.

Com sua independência reduzida e muitos de seus conhecidos espalhados pelo Brasil, minha avó foi ficando, naturalmente, mais carente. Sentia fala de se encontrar com as poucas amigas que ainda estavam vivas ou com os familiares que não via há muito. Ela conhecia muita gente, pessoas que não fazia idéia de quem eram. E ela sempre falava que gostaria de ver a pessoa x, que estava na cidade y. Sempre quis leva-la, em alguma oportunidade, para que ela encontrasse essas pessoas mas as questões logisticas de ter o carro e tempo, somadas da preocupação de viajar com ela e algo acontecer de saúde, nunca permitiram.

Contudo, acredito que minha avó era uma das pessoas que mais sabia lidar com a solidão. E não em um sentido melancólico, mas realista. Ela exercitava a presença das pessoas nos pensamentos, no escrever, nas lembranças. Ela nunca esqueceu de ninguém, todo e qualquer membro da família ela conhecia e dedicava tempo dos seus pensamentos e orações.

Havia muitas "pequenas" coisas que ela fazia que eu nunca vou me esquecer. Ela mantinha em uma agenda antiga a data de aniversário de todos os filhos, netos e bisnetos. Ao longo dos anos ela ia renovando a agenda mas a última parou em 2016. Então, desde 2016, ela usa a mesma agenda, para lembrar do aniversário de cada um. E não era para saber que dia ia cair e sim para ela "reforçar" as orações dela quando o dia chegasse. Em cada dia, ela escrevia uma oração e anotava "reforço 21/10/2017" ; "reforço 21/10/2018". E assim ela fazia com todos. E isso não era só nessa agenda, em vários papéis e lugares que ela anotava orações ela ia fazendo esses reforços. Alguns eram mais gerais, "para todos netos e filhos" e outros específicos "para pessoa x".

Como ela morou grande parte da minha vida com minha família, sempre tentei quando pude entrete-la, para que essa imobilidade tão ruim para ela não pesasse tanto. E ela sempre foi muito grata por esses pequenos gestos. Já levei ela para ir ao cinema, só eu e ela, já fomos juntos em praças, caminhar, ver umas árvores. Íamos tomar sorvete aqui e ali. Sempre gostei de fazer esses pequenos passeios com a minha avó porque via o quanto era bom pra ela. Ela se distraía muito e cansava bastante. Como criança mesmo. Chegava em casa, comia e dormia depois de um dia de passeio.

Para se distrair, enquanto sozinha, ela jogava muito dominó e baralho. Sozinha mesmo. As vezes era meio triste ver essa cena mas depois foi acostumando pois era de fato uma distração, pra ter as mãos ocupadas. Mas ainda assim, sempre notei que ela ficava feliz quando sentava para jogar com ela. Ela era muito boa e me ensinou a jogar buraco. talvez o único jogo de carta, entre outros que aprendi ao longo da vida que já esqueci como jogar, que nunca vou esquecer.

Sempre que a via sentada, fazia massagem no ombro dela e reação era sempre a mesma "aí que gostoso". Ela flexibilizava todo o ombro e dava uma baita relaxada. Sentava ao lado dela depois e ela sempre agradecia falando que eu era um neto muito carinhoso. Acho que ela sempre gostou bastante de mim, me sinto muito feliz por isso.

Outra coisa que a distraía muito era o tricô. Quando comprávamos agulhas novas e linhas novas, ela sentava e ficava o dia todo tricotando. Algumas horas após chegar com essas compras, ela já tinha uma meia, ou cachecol, ou tapete, pronto. E ao longo dos anos, ganhei muitas meinhas feitas de tricô dela. Ela fazia de vários tamanhos e de várias cores e sempre fazia para várias pessoas. Minha avó pensava em todo mundo.

Outra consequência dessa imobilidade dela, natural até da idade também, era a ausência de grandes novidades. Há muito tempo não acontecia nada grandioso na vida dela e acredito que por conta disso ela lembrava muito do passado. Era um certo rito escutar as mesmas histórias repetidamente. Ela costumava falar de como conheceu meu avô, de como foi a vida pós o falecimento dele e ter que lidar com 5 filhos pequenos, mãe-solo. Costumava falar dos vários lugares no qual era morou, Santos, onde nasceu, Campinas, Águas de Lindóia e São Paulo.

Uma das histórias que eu escutei muito era a do "sombra". Minha avó, quando jovem, era uma mulher muito bonita, que acredito que se destacava das demais. Ela sempre conta que foi cobiçada. O sombra era um rapaz com quem ela tinha tido um relacionamento breve mas que após o término não parou segui-la. Mesmo após ela ter conhecido meu avô, esse tal do "sombra" continuava na sombra dela. Até que ela pediu para meu avô dar um apavoro nele. Uma história esquisita mas marcante.

Minha avô era uma mulher extremamente fiel. Poderia atribuir isso a sua forte religiosidade mas acredito que é para além disso. Pra mim, estaria mais ligado a um princípio dela mesmo. Sempre amou muito meu avô, apesar dele ter feito-a sofrer tanto. Sempre amou muito todos os filhos, também apesar de muitos e inúmeros conflitos e desigualdades de relação entre os 5. Sempre senti que havia um laço de sentimento, de amor, que ela tinha por todas as pessoas que era inquebrável, imbatível.

Ela morou por muitos anos conosco e eu a tive muito presente em minha vida. Ela esteve presente em quase todos os momentos marcantes da minha vida, todos os aniversários, formaturas, pequenas celebrações. Ela sempre esteve lá. E apesar de ser bastante desafiador cuidar e lidar com a manutenção de vida de uma pessoa idosa, com muitas fragilidades, eu e minha família sempre fizemos o máximo, para além do que tínhamos condições para cuidar dela.

Neste ano de 2020, saí da casa dos meus pais ao ter alugado meu próprio apartamento. Um dos meus maiores prazeres em ter conseguido sair da casa deles era poder "doar" meu quarto para minha avó. Um espaço maior do que o quarto que ela tinha, mais arejado, mais armários, onde ela podia fazer mais dela. Minha avó tinha muitas coisinhas. Os livros, os milhões de papéis, os pingentes e bijuterias que ela fazia, os tricôs, as fotos que ela guardava.

As poucas vezes que frequentei a casa dos meus pais este ano por conta da pandemia, após ter me mudado, todas vezes ela agradecia por ter cedido o quarto. Ela se sentia mais acolhida e mais reservada. A vista do quarto é ótima e adorava pensar que ela podia ficar olhando para árvores, como eu adoro também.

Enfim. Poderia escrever muitos mais sobre minha avó. No dia 29/12 deste ano ela se foi. Foi um mês muito difícil para todo mas especialmente para ela, pois sofreu muito devido complicações de uma segunda queda, que resultou numa segunda fratura de fêmur. Ela tinha 96 anos. E apesar de já ter uma idade surpreendente, ela sempre esteve muito lúcida. Apesar de problemas corriqueiros de saúde, uns mais preocupantes que outros, no geral, esteve sempre bem. Era frequente irmos a médicos com ela onde ela sempre relatava as muitas dores que sentia mas, no fim, os exames saiam todos ótimos. Isso nos deixava confusos mas, naturalmente, surpreendidos. Como pode aos 96 ela estar tão inteira assim.

Acontece que nada dura pra sempre mesmo. A morte, incrivelmente, faz parte da vida. Mas, ainda, sinceramente, não conseguia imaginar minha vida sem ela. Ela sempre esteve por aqui. São inúmeras memórias, momentos. As pequenas grandes, gigantes, coisas que nunca esquecerei em relação a minha avó. Assim como Boça tinha orgulho de ser "criado pela vó", eu sempre tive orgulho de ser o neto carinhoso, que era cuidado por ela também.

Sempre tive orgulho de usar as pulseiras, colares, roupas, meias, e tudo mais que ela fazia. Sempre fiz questão de mostrar pra ela que estava usando, queria que ela se sentisse querida e reconhecida. Desde 2010 tenho um quadro dela no meu quarto. Uma foto em que eu era bebê ainda. Eu no carrinho e ela ao lado no sofá. Sempre mostrava pra ela, dizendo: "nunca te esqueço, vó, você está sempre aqui. Olha a foto que eu sempre guardo".

E é isso, vó. Nunca vou te esquecer. Tenho milhares de lembranças e vou te carregar pra sempre. Sinto orgulho de poder ter cuidado de você e de ter te dado carinho. Sinto orgulho de ter tido uma avó presente como foi. Sei que tudo acaba, e você viveu por muito tempo, tempo que poucos viveram. Sua vida foi desafiadora mas ultimamente, foi uma vida cheia de sucessos.

Seu tempo chegou, naturalmente. Estivemos com você durante todos esses últimos dias, nos esforçamos. E fico feliz em acreditar que sua partida, no fim, foi uma decisão sua. Acredito que você a fez quando sentiu que estava pronta.

Vó, pra sempre comigo. Amo você, Eterna Dona Amélia.

I’m going away
Where the wind beats heavy on the sand
Do you want to come with?

Do You Want To Come With, Stephen Fretwell

Minha avó e Alfredo.

Amélia Branco Bontempo

13/04/1924 - 29/12/2020 - Pra sempre.